domingo, 3 de fevereiro de 2008

O Principe Perfeito e a História

Dom Luiz de Orléans e Bragança, Príncipe Imperial do Brasil



“O Príncipe Perfeito”



Infância e Juventude

Dom Luiz Maria Filipe Pedro de Alcântara Gastão Miguel Rafael Gonzaga de Orléans e Bragança nasceu em 26 de janeiro de 1878, sendo filho de Gaston d'Orléans, conde d´Eu e Dona Isabel, princesa imperial do Brasil. Seus avós paternos eram Louis Charles, duque de Nemours e Victoria de Saxe-Coburgo-Kohary, enquanto seus avós maternos eram Dom Pedro II, imperador do Brasil e Teresa Cristina de Bourbon-Sicílias.¹

Seu parto foi muito mais fácil que o de seu irmão mais velho, recebendo seu nome em homenagem ao avô paterno. No entanto, sendo o segundo filho da herdeira do trono imperial do Brasil, não era esperado que um dia viesse a ascender ao trono.¹

Desde pequeno revelou possuir uma personalidade forte e determinada, como quando em viagem a Europa com sua família no dia 23 de fevereiro de 1887 em que ocorreu um terremoto logo no amanhecer e enquanto seu irmão mais velho Pedro ficara nervoso e chorava, Luiz simplesmente ficou impassível, como se a situação pouco o afetasse. ¹

As discrepâncias entre ele e o irmão mais velho eram notórias, como seu pai descreveu em uma carta datada de fevereiro de 1889 onde revelou Pedro como “tão incapaz e descuidado nisso (jogar bilhar com D. Pedro II) quanto em tudo o mais”.¹ Enquanto Pedro era gentil e simpático, [...] não gostava de estudar e, geralmente, se mostrava desajeitado. Luiz tinha força de vontade, era muito altivo e perspicaz.¹ Gaston, o conde d´Eu afirmou em uma carta em 1890 que o [...] Bebê Pedro sempre se destaca pela indolência e a inépcia”, ao passo que “Luiz faz exatamente o mesmo trabalho escolar sozinho, com um prestígio e uma capacidade admiráveis”. ¹

O príncipe [...] revelou desde muito cedo a dedicação às letras que, ao se tornar adulto, desabrocharia nas diversas obras que publicou relatando suas experiências de viagens: Dans les Alpes, Tour d´Afrique, Onde quatro impérios se encontram, Sob o Cruzeiro do Sul.³

Luiz, de [...]natureza irrequieta, a necessidade e ação que, nos anos juvenis, o impelia a esportes impulsionou-o, na maturidade, à ação política.³ Não sendo a toa que no auge da campanha abolicionista, ele e seus irmãos [...]publicavam um jornal abolicionista no palácio de Petrópolis.²

Com o golpe de estado que derrubou a monarquia em favor da república em 15 de novembro de 1889, a princesa Isabel preferiu enviar os filhos para Petrópolis, onde mais tarde Luiz recordou que “encerrados no palácio, deixaram-nos durante dois longos dias na mais completa ignorância do que se passava lá fora”, até que foram entregues de volta aos seus pais e partiram para o exílio forçado. ¹

Como não puderam levar nada, a não ser alguns objetos pessoais de mão, a família imperial se viu numa situação financeira muito complicada, que piorou com a recusa de Dom Pedro II de cinco mil contos de ajuda de custo oferecidos pelos golpistas.² Tiveram que se contentar com a ajuda de amigos e até mesmo do pai de Gaston, conde d´Eu. ¹

Finalmente, em 1890, resolveram fixarem-se nos arredores de Versalhes, quando Pedro tinha quinze anos, Luiz treze e o irmão mais novo, Antônio, apelidado de “Totô”, nove. ¹

Apesar dos mais variados esforços dos monarquistas no Brasil para ressuscitarem a monarquia, após a morte de Dom Pedro II em 1891, nenhum membro da família imperial colaborou com nenhum tipo de ajuda, nem mesmo com palavras de apoio explícito. Pedro, irmão mais velho de Luiz e herdeiro da princesa Isabel, [...] chegou a maioridade em 1893, mas não tinha desejo e nem capacidade para assumir a causa.¹


No mesmo ano Pedro partiu para Viena, capital do então Império Austro-Húngaro para estudar na escola Militar de Wiener Neustadt, pois segundo sua própria mãe, é [...] preciso que faça alguma coisa e a carreira militar nos parece a única que ele deve seguir. Luiz e seu irmão mais novo, Antonio logo o seguiram para a mesma escola militar. ¹



Vida adulta

Em 1896, Pedro conheceu uma moça chamada Elizabeth de Dobrzenicz e logo se apaixonaram, tendo o casal combinado bastante em [...]termos de caráter e temperamento. Enquanto isso, Luiz, [...]era um ativista; ambicioso e voluntarioso, encarava o mundo como algo a ser conquistado. Praticante de alpinismo, escalou o Mont Blanc em 1896. A uma visita ao sul da África, seguiu-se uma longa e ousada excursão à Ásia Central e à Índia. Sobre essas três experiências ele escreveu e publicou.¹ Não sendo a toa que era justamente Luiz, que [...]D. Isabel e o conde d´Eu viam a pessoa capaz de manter a causa monárquica no Brasil. ¹

Após retornar de suas aventuras em 1907, Luiz planejou um projeto ambicioso que seria desafiar o decreto de banimento da família imperial, viajando para o Rio de Janeiro.¹ Sua súbita chegada criou um rebuliço na antiga capital imperial, tendo sido amplamente [...] noticiado nos jornais, o episódio alcançou grande repercussão nos meios políticos, colocando a família imperial no centro das atenções e muitos monarquistas e curiosos vieram recebê-lo. ³

No entanto, Luiz foi impedido de desembarcar e não foi permitido pisar em sua terra natal pelo governo republicano. Inclusive enviou um telegrama a sua mãe dizendo: “Impedido de desembarcar pelo governo, saúdo da baía da Guanabara, na véspera do 13 de Maio, a redentora dos cativos.” [...] Mais tarde, relatou as experiências dessa viagem em Sob o Cruzeiro do Sul, publicado em 1913.³



A renúncia do irmão mais velho

Em 1908, Luiz ficou noivo de uma prima, Maria Pia de Bourbon-Nápoles, sobrinha-neta de sua avó materna, Teresa Cristina, enquanto o seu irmão mais velho, Pedro, herdeiro da princesa Isabel, desejava casar-se com Elizabeth de Dobrzenicz. Tal casamento não seria permitido pela então Chefe da Casa Imperial, a princesa Isabel, pois Elizabeth, ou “Elsi”, como era chamada, não fazia parte de nenhuma família reinante da Europa, mesmo que alguma deposta. ¹

A princesa Isabel, como mãe, não desejava o sofrimento do filho, e concordou com o casamento de Pedro contanto que ele renunciasse ao seu direito ao trono. [...] Pedro, que não estava interessado em ser monarca, assinou a renúncia no dia 30 de outubro de 1908. O casamento de Luiz com Maria Pia foi celebrado em 4 de novembro, e o do Pedro com Elizabete, dez dias depois.¹

Pedro renunciou solenemente, assinando um documento aqui transcrito:



Eu o Principe Dom Pedro de Alcantara Luiz Philippe Maria Gastão Miguel Gabriel Raphael Gonzaga de Orleans e Bragança, tendo maduramente reflectido, resolvi renunciar ao direito que pela Constituição do Imperio do Brazil promulgada a 25 de Março de 1824 me compete à Corôa do mesmo Paiz. Declaro pois que por minha muito livre e espontanea vontade d'elle desisto pela presente e renuncio, não só por mim, como por todos e cada um dos meus descendentes, a todo e qualquer direito que a dita Constituição nos confere á Corôa e Throno Brazileiros, o qual passará ás linhas que se seguirem á minha conforme a ordem de successão estabelecida pelo Art. 117. Perante Deus prometto por mim e meus descendentes manter a presente declaração.

Cannes 30 de Outubro de 1908

assinado: Pedro de Alcântara de Orleans e Bragança

Seguida pela resposta de Isabel:

9 de Novembro de 1908, {Castelo de] Eu

Exmos. Srs. Membros do Diretório Monárquico

De todo coração agradeço-lhes as felicitações pelos consórcios de meus queridos filhos Pedro e Luiz. O do Luiz teve lugar em Cannes no dia 4 com todo o brilho que desejava para ato tão solene da vida de meu sucessor no Trono do Brasil. Fiquei satisfeitíssima. O do Pedro deve ter lugar no dia 14 próximo. Antes do casamento do Luiz assinou ele sua renúncia à coroa do Brasil, e aqui lha envio, guardando eu papel idêntico. Acho que deve ser publicada essa notícia o quanto antes (os senhores quererão fazê-lo da forma que julgarem mais adequada) a fim de evitar-se a formação de partidos que seriam um grande mal para nosso país. Pedro continuará a amar sua pátria, e prestará a seu irmão todo o apoio que for necessário e estiver ao seu alcance. Graças a Deus são muito unidos. Luiz ocupar-se-á ativamente de tudo o que disser a respeito à monarquia e qualquer bem para nossa terra. Sem desistir por ora de meus direitos quero que ele esteja ao fato de tudo a fim de preparar-se para a posição à qual de todo coração desejo que um dia ele chegue. Queiram pois escrever-lhe todas as vezes que julgarem necessário pondo-o ao par de tudo o que for dando. Minhas forças já não são o que eram, mas meu coração é o mesmo para amar minha pátria e todos aqueles que nos são tão dedicados.

Toda a minha amizade e confiança

a) Isabel Condessa D´Eu

A partir de então, [...] D. Luís passou então a ter maior envolvimento com os monarquistas, assumindo o papel de pretendente ao trono, em lugar da princesa Isabel, que não se colocava na liderança explícita do movimento.¹ Seu esforço para reverter todo o mal causado pela inércia da família imperial quanto a causa monárquica foi enorme, e em 1909 [...]lançou um manifesto para reunir os monarquistas, retomar a propaganda da causa e fundar novos centros de militantes. Lançou então seu primeiro manifesto político, a que se seguiu o de 1913. Conseguiu reunir correligionários em diversos estados. ³

De seu casamento com Maria Pia, nasceram três filhos: Dom Pedro Henrique (1909-1981), que se tornou o sucessor direto da princesa Isabel e Chefe da Casa Imperial após o falecimento desta em 1921; Luiz Gastão (1911-1931) e Pia Maria (1913-2000). A princesa Isabel não tardou a manifestar sua opinião quanto aos netos, escrevendo em 1914 uma carta dizendo “[...] envio-lhe uma fotografia minha com meus netos do Luiz. Pedro Henrique cada vez se desenvolve mais e é criança inteligentíssima. Os avós têm um amor especial pelos queridos netinhos”.¹



A Primeira Guerra Mundial

Em agosto de 1914, se iniciou a Primeira Guerra Mundial, que na época fora conhecida como “A Grande Guerra”. A [...] invasão da França pela Alemanha ofereceu uma válvula de escape tanto para o idealismo como para o ativismo de Luiz, que segundo suas próprias palavras, era um “soldado no fundo do coração”. Ele e o irmão Antônio precipitaram-se a defender a pátria dos ancestrais. Como a lei os proibia de servir nas forças da nação, por serem membros da família real francesa, ambos se alistaram como oficiais do exército inglês.¹

Em 1915, combatendo nas trincheiras de Flandres e servindo como oficial de ligação, Luiz contraiu um tipo agressivo de reumatismo ósseo que o deixou debilitado e incapaz de andar. ¹

Foi retirado em estado grave das trincheiras e levado para segurança, a fim de poder recuperar-se da moléstia. Em conseqüência de suas ações no conflito e por sua bravura, Luiz recebeu diversas condecorações: Medalha Militar do Yser, pelo rei Alberto I da Bélgica; Legião de Honra, no grau de cavaleiro, e a Cruz de Guerra, pelo governo francês; a British War Medal, a Victory Medal e Star pelo Reino Unido da Grã-Bretanha.4



Últimos anos

A [...] moléstia contraída nas trincheiras resistiu à todas as formas de tratamento [...] e sua [...]saúde foi declinando lenta e implacavelmente, até que a morte o levasse em 26 março de 1920.¹

Príncipe desconhecido pelos brasileiros atualmente, tendo sido um exemplo de cavalheirismo e seu amor por sua terra natal foi demonstrado em todos os momentos possíveis, ainda mais depois que [...] assumiu a posição de príncipe imperial em 1908, manifestando-se publicamente a favor da restauração do trono no Brasil e tomando parte ativa nos movimentos monarquistas até a Primeira Guerra Mundial. ³

Suas [...] idéias, como a inclusão da questão social na agenda política, numa época em que era considerada “caso de polícia” pelos governantes da República Velha, lhe renderam o epíteto de “príncipe perfeito” ³ ou mais precisamente como rei Albert II dos Belgas falou a seu respeito: “homem como poucos, Príncipe como nenhum".4



Bibliografia

- ¹ BARMAN, Roderick J., Princesa Isabel do Brasil: gênero e poder no século XIX, UNESP, 2005.

- ²CARVALHO, José Murilo de, D. Pedro II, Companhia das Letras, 2007.

- ³BR História, edição nº 4, Ano 1, Duetto, 2007.

- 4SANTOS, Armando Alexandre dos, Dom Pedro Henrique: o Condestável das Saudades e da Esperança, Editora Artpress, 2006.

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