segunda-feira, 10 de março de 2008

Sandra Ramon: COMENTÁRIO DE QUEM VIVEU O MOMENTO

Te Deum na Igreja da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e S. Benedito dos Homens Pretos - Rio de Janeiro

Comentários da Prof. Sandra Ramon sobre as comemorações no Rio de Janeiro

Engana-se a jornalista, preocupada com o possível erro diplomático cometido pelo jovem negro Vanderli, membro da Irmandade dos Homens Pretos, membro do Instituto Dona Isabel I, a Redentora, um brasileiro militante da causa monárquica.

Vanderli, em sua posição de Mestre de Ceromônias, talvez a pessoa que tenha emprestado maior empenho ao sucesso da festa dos Homens Pretos, antes a festa do povo brasileiro, representou o grito de tantos quantos estavam presentes ao ato.

Faltou à profissional, a emoção que todos devemos emprestar ao exercício de nosso trabalho. Faltou a ela, perceber detalhes muito mais distintos. Exerceu a função para o qual foi paga.

Não pôde perceber o congraçamento social que havia naquela igreja na manhã de 08 de março de 2008. Homens, mulheres, crianças, pretos, mulatos, brancos, estudados ou não. Gente simples do povo, reis, rainhas, príncipes, imperadores, a neta da Princesa Isabel! Misturados homegeneamente pelo encanto do imaginário popular, viram o que desejavam ver e emocionaram-se. Vibraram. Vibramos. Foi a maior manifestação popular ligada a História que pudemos assistir.

Erro diplomático? Às favas. Conta a beleza e a grandeza sócio-cultural religiosa manifestada em cada presença.

Pobre jornalista, que não foi sensível à esplendorosa entrada de Dom Luiz à Igreja, ao som de Magnificat, pelo coral da Igreja Nossa Senhora de Lurdes. Momento ímpar: quem não emocionou-se? Quem não curvou-se ante a magestosa presença do nosso Imperador "de jure"?

Dona Teresa. Por que não foi citado que o Mestre de Cerimônias, ao aclamar sua presença, lembrou sua importãncia naquela data em que comemora-se também o Dia Internacional da Mulher? E a sua idosa magestade, simples, bonita, aplaudida de pé levanta-se, vira-se em direção a Assembléia e faz um gracioso gesto de agradecimento, bem à moda das Cortes.

A Homilia do Abade Dom José Palmeiro Mendes do Mosteiro de São Bento. Curta, breve, aula de História sobre o momento ali revivido.

O comportamento elegante, porque natural. Rico, porque cada um levou o melhor de si no coração, na alma, na honra, na vontade.

O cortejo da entrada da Irmandade, com seus estandartes, suas opas, simbolismos da fé e respeito de cada mulher, cada homem, velhos, novos. Brasileiros.

Tal como D.João há duzentos anos, D.Luiz é incensado e curva-se ante o altar de Nossa Senhora. Pede bênçãos para o país onde a sua chegada, declarara: "Aqui temos uma missão".

Em um templo que abriga mais de mil pessoas, completamente lotado, o silêncio celestial quando todos ajoelham-se contritos à entrada do Santíssimo Sacramento. Emoção pura. Um nó se faz na nossa garganta e lágrimas teimosas enchem nosso olhar. Independentemente de questão religiosa, ali estava o Espírito Santo de DEUS a jogar chuvas de bênçãos sobre a Pátria Brasileira.

Te-Deum. Do Padre José Mauricio, mulato, protegido de Dom João que encantara-se com seus dotes artísticos musicais. No arcaico latim, origem de nossa lingua portuguesa, brasileira, de tantas terras, de tantas raças.

Sim. Vanderli anunciou a chegada de Dom Duarte Pio, rei de Portugal. E ninguém importou-se porque estávamos ali por uma causa maior. Pusemo-nos de pé a aplaudir sua entrada.

Simplicidade e emoção pontuaram o discurso do Procurador da Irmandade dos Homens Pretos e do Dr. Francisco, estudioso exemplar e dedicado das histórias do Brasil e Portugal, benfeitor da Irmandade.
Nada desviava a atenção dos presentes. Nenhum ruído podia ser percebido na numerosa assembléia.

Linda a decoração. Flores amarelas contrastavam o verde das folhas, enfeitando o Brasil. Bandores em verde-amarelo pendiam por todos os cantos e recantos da igreja, alegrando sua sóbria arquitetura colonial.

Palavras de Dom Luiz de Orleans e Bragança. Ternura. Conhecimento das raízes nacionais. Atenção aos atuais problemas brasileiros. Perfeição do Estadista. Quando anunciado, é respeitosamente ovacionado de pé, posição em que permanecem os presentes até o "Tenho Dito" seguido de longos aplausos.

Palmas ao Imperador do Brasil. Palmas à esperança de ver a Pátria novamente vibrante a brilhar no palco das grandes nações do mundo. Palmas ao Império Brasileiro restaurado. Palmas. Palmas para o Brasil. Palmas para a brava gente brasileira.

A Banda da Polícia Militar toca o Hino Nacional e o povo de pé canta com entusiasmo.

Encerrando, as bênçãos por Dom Abade.
Cada um dos presentes, certamente levou seu pensamento ao Alto, pedindo em prece por nosso país.

Em procissão, deixa a igreja a Imperial Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, fundada em 1640.

O povo não tem pressa. Convidado a um "copo d'água", dirige-se ao salão principal e, solene, aguarda a entrada do Imperador, novamente aclamado.

E repete-se o "beija mão", hoje simplificado por um simples cumprimento, conforme insiste Dom Luiz.

VIVA DOM LUIZ! VIVA O BRASIL! VIVA PORTUGAL, NOSSA PÁTRIA MÃE! E todos davam vivas, pois há muito está consagrada a amizade dos povos brasileiro e português.

Felizes aqueles que têm olhos de ver, ouvidos de ouvir. Pois ali, tudo foi perfeito.

Naqueles momentos, não haviam diferenças de nacionalidade, raça, cultura, credo.

Ali estavam, mostrando "que um filho seu não foge à luta", o Brasil, os "filhos deste solo, mãe gentil, PÁTRIA AMADA, BRASIL!"

Sandra Ramon Franco

4 comentários:

Miguel Saquarema disse...

Parabéns pela excelente "reportagem"!

Monarquia em Ação disse...

Parabéns Sandra, fiquei emocionado com toda descrição e postura de alma. É assim que se muda o Brasil.

André disse...

O comentário "politicamente correto" da jornalista é diverso do comentário "humanamente correto" da professora Sandra. O primeiro, é limitado pelos clichês e convenções midiáticas do jornalismo engajado, que pauta sua redação na desmitificação do sagrado religioso e temporal, na banalização do acontecimento histórico. O segundo, espontâneo, autêntico, emocional, é capaz de captar o sentido profundo dos fatos e a linguagem sutil dos imponderáveis. O primeiro pretende apenas informar, mas sugere uma interpretação deformada do fato; o segundo informa a realidade do fato, e apresenta uma interpretação que enriquece o espírito do leitor.

Joao disse...

Tomei conhecimento de seu texto, cara Sandra, por meio de e-mail que o Bruno de Cerqueira me enviou e agora encontrei este blog que não conhecia e gostei muito de reler seu texto repleto de lirismo e entusiasmo. Lamento muito não ter podido estar no Rio no augusto dia 08. Imagino a beleza comovente do Te Deum laudamus. Uma atualização memorial do 08 de março de 1808.

Saudações Cordiais e Uma Feliz Páscoa!
João Dias Rezende Filho