quarta-feira, 12 de março de 2008

Instituto Histórico e Geográfico e Faculdade de Direito de SP Convidam:

Revista de História da Biblioteca Nacional

1808, antes e depois... - Novidades nas livrarias

A corte engana Napoleão, cartas de Carlota Joaquina e a viagem da família real

O ano de 2008 anuncia novas e velhas polêmicas e a demolição de mitos. Talvez fosse melhor pensar, antes de tudo, na pertinência das comemorações em torno da “data canônica” – para alguns especialistas a precursora da Independência. No último Simpósio Nacional da Associação Nacional de História (2007), o historiador Luiz Felipe de Alencastro fez uma proposta ousada, que poucos têm coragem de sustentar: Por que 1808 e não 1850? Afinal, onde estará a crise do escravismo nas obras lançadas e relançadas em razão do bicentenário da vinda da Corte? A falta de opção por este viés interpretativo não compromete a qualidade de alguns livros, como os do jornalista Laurentino Gomes, da historiadora Francisca Nogueira de Azevedo, e o relato de época do tenente irlandês Thomas O’ Neil, acompanhado de alentada introdução de Lília Schwarcz.

Quanto a 1808: como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil, não há como negar o esforço do autor em percorrer a bibliografia sobre o tema, desde o clássico de Oliveira Lima até as interpretações mais recentes, estabelecendo o debate historiográfico e preocupando-se em situar os fatos no contexto histórico. Por outro lado, uma das premissas do jornalista, “resgatar a história da Corte portuguesa no Brasil do relativo esquecimento a que foi confinada”, parece contraditória ante a numerosa bibliografia sobre o período. Além disso, o extenso subtítulo é suscetível à traição. Embora o objetivo de alcançar um público mais amplo e pouco afeito à literatura acadêmica seja louvável, apostar em “fuga” da família real – por mais que os instantes finais da partida autorizem essa fórmula – e na imagem do “príncipe medroso” significa retroceder a questões há muito debatidas e até refutadas. Fuga ou transferência, justamente por se tratar de evento histórico, é algo que não se limita à semântica. A aparentemente simples operação de substituir a segunda palavra pela primeira implica desconsiderar um projeto político de mudança do centro de poder monárquico aventado em Portugal desde o século XVI – apesar das hesitações que retardaram a partida do cais de Belém em 1807. Um aspecto serve de ponte entre a obra do jornalista e a de Francisca Nogueira. Enquanto o primeiro reitera o ódio profundo entre D. Carlota Joaquina e D. João, a historiadora – há anos dedicada à tarefa de “repensar e reconstruir” as imagens cristalizadas sobre a Princesa do Brasil – mergulhou no íntimo da correspondência da espanhola de gênio impetuoso, portadora de uma educação refinada e inspirada nas Luzes do reinado de Carlos III, e trouxe à tona elementos importantes para a revisão da personagem.

Carlota Joaquina: cartas inéditas revela traços da relação entre a “esposa amante e fiel” e “meus amores da minha alma” – D. João –, assim como da ardorosa defensora da integridade dos domínios espanhóis na América após a deposição dos Bourbon. Decidida a não se deixar abater pelos “obstáculos que continuamente se opõem às minhas idéias e justas operações”, escreveu ao governador de Montevidéu em 1810 e enviou-lhe diversas jóias para que realizasse “as gloriosas empresas que vos inspira vosso santo patriotismo”. A polêmica rainha devassa não é a única revigorada. Os tais 15 mil (pouco mais ou menos) cortesãos que teriam acompanhado o regente na travessia do Atlântico terão seu descanso da tormentosa viagem mais uma vez interrompido. Tudo por causa do relançamento de A viagem da família real portuguesa para o Brasil, um escrito de 1810 assinado por Thomas O’ Neil, fonte que alimentou a idéia de fuga e do exorbitante número de membros da comitiva real. “Muitas vezes pouco confiáveis”, segundo Lília Schwarcz, as informações do irlandês provêm da sua memória e de relatos colhidos, configurando uma trama em que os fatos aparecem freqüentemente truncados. (Fabiano Vilaça)

1808: como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil, de Laurentino Gomes. São Paulo, Editora Planeta do Brasil, 408 páginas, R$ 39,90 www.editoraplaneta.com.br

Carlota Joaquina: cartas inéditas, de Francisca L. Nogueira de Azevedo. Rio de Janeiro, Editora Casa da Palavra / Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, 408 páginas, R$ 55,00 www.casadapalavra.com.br

A viagem da família real portuguesa para o Brasil, de Thomas O’ Neil. Rio de Janeiro, José Olympio / Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, 128 páginas, R$ 29,00 www.record.com.br


Revista de História da Biblioteca Nacional.