segunda-feira, 7 de julho de 2014

Fwd: 80 ANOS DO FALECIMENTO DO PRÍNCIPE DOM PEDRO AUGUSTO DE SAXE-COBURGO E BRAGANÇA

80 anos do falecimento do Príncipe Dom Pedro Augusto de Saxe-Coburgo e Bragança

Por Dionatan da Silveira Cunha | Blog Monarquia Já

 

Há 80 anos, em 19 de setembro de 1934, o saudoso Conde de Afonso Celso, em nota necrológica da Sessão Ordinária do IHGB, dizia: "entre os nossos consócios falecidos figurava um príncipe. Foi Dom Pedro Augusto de Saxe Coburgo, neto do nosso grande imperador Pedro II e filho da gentil Princesa D. Leopoldina". Afonso Celso de Assis Figueiredo Júnior tinha total conhecimento deste ilustre confrade, que tanto no Rio, quanto no exílio pôde acompanhar.

Este Príncipe, que no final da vida experimentou o esquecimento da Nação, foi recebido, ao nascer, com repiques de sinos, salvas de canhões e girandolas de foguetes. Carregando o peso de ser o neto primogênito do Imperador Dom Pedro II e de simbolizar a bonança, depois da terrível Guerra do Paraguai - verdadeiro terremoto no sul dos trópicos, Dom Pedro Augusto teve, portanto, as mais gloriosas honras do Império, mas também as mais desventurosos penas do desterro.


​Dom Pedro Augusto Luís Maria Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Saxe-Coburgo e Bragança nasceu em 19 de março de 1866, sob os auspícios do médico Cândido Borges Monteiro – primeiro e único Visconde com grandeza de Itaúna, e com o árduo trabalho da parteira Marie Josephine Mathilde Durocher, renomada profissional e famosa ensaísta – mais tarde primeira mulher a ser recebida na Academia Imperial de Medicina. Naquela segunda-feira, o Imperador Dom Pedro II e a Imperatriz Dona Teresa Cristina, emocionados, acompanhavam todos os progressos no Palácio Leopoldina. Nascido, o pequeno Príncipe passou a receber toda a atenção dos avôs maternos, sendo festejado tanto pela Corte, quanto pelo povo. Dom Pedro Augusto foi batizado na Capela Imperial, atual Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé, e teve como padrinhos o avô - Imperador do Brasil e a bisavó – a Rainha Maria Amélia da França. O nascimento mereceu destaque na Fala do Trono, em cerimônia que marcava a abertura dos trabalhos da Assembleia Geral do Império, de 3 de maio de 1866, onde o Imperador Dom Pedro II declarava: "Cheio de prazer vos anúncio o nascimento do Príncipe Dom Pedro, fruto do feliz consórcio de minha muito cara filha a Princesa Dona Leopoldina com o meu muito prezado genro o Duque de Saxe".

Fruto do casamento de uma princesa brasileira – nascida nos trópicos, e de um Príncipe alemão - nascido na França, Dom Pedro Augusto era membro de duas das mais importantes Famílias Soberanas do mundo, os Bragança e os Saxe-Coburgo-Gotha. Por sua mãe, a Princesa Dona Leopoldina Teresa Francisca Carolina Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança e Bourbon, herdou as tradições das Casas de Borgonha e Avis que construíram Portugal, fazendo daquele pequeno país uma grande potência mundial, também da Dinastia Bragantina reconhecida por ter dados Reis e Santos àquelas terras e por ter cimentado a Independência do Brasil, dando também a este país, os seus dois melhores governantes. Dona Leopoldina descendia também dos Bourbon, Família Soberana da França, Espanha e de parte da Itália.  Por seu pai, o Príncipe Luís Augusto Maria Eudes de Saxe-Coburgo-Gotha – Duque de Saxe, que fora indicado em 1863 para ser eleito Rei da Grécia, Dom Pedro Augusto era um dos legatários dos Ducados Ernestinos, originados na antiga Casa de Wettin, que dominaram Sachsen-Coburg und Gotha, no centro da atual Alemanha, de 1826 a 1920. Esta Casa emprestou a várias partes da Europa alguns de seus melhores varões, onde seus membros subiram ao trono da Grã-Bretanha, Polônia, Bélgica e Bulgária. Dom Pedro Augusto nascia aparentado com a realeza de todo o mundo: era neto dos Imperadores do Brasil, bisneto do Rei Luiz Filipe dos Franceses, primo do Duque Soberano Ernesto II de Saxe-Coburgo-Gotha, do Rei Francisco II das Duas Sícilias, do Rei Leopoldo II dos Belgas, do Rei Dom Fernando II de Portugal e do Príncipe Alberto – Consorte da Rainha Vitória do Reino Unido da Grã-Bretanha. Dom Pedro Augusto era ainda sobrinho do Palatino da Hungria, o Arquiduque José Antonio da Áustria-Toscana, do Czar Fernando I da Bulgária, e, principalmente, da Herdeira do Trono brasileiro, a Princesa Dona Isabel.

Depois do batizado do filho, o Duque de Saxe, acompanhado da família, rumou para a Europa. A primeira viagem internacional do pequeno Príncipe Pedro Augusto e da Princesa Dona Leopoldina serviu também como oportunidade para conhecer os familiares do além-mar, inclusive a Imperatriz Viúva Dona Amélia, que morava em Portugal e tinha como uma querida avó. A família só voltou ao Brasil em 1867, quando a Princesa estava gravida do seu segundo filho. Em 6 de dezembro daquele ano, nascia, em Petrópolis, Dom Augusto Leopoldo, o Príncipe Marinheiro.

Depois da Guerra, a vida no Brasil se desenrolava de maneira tranquila. Com os cunhados e os sogros, além dos amigos que recebiam as terças-feiras no Palácio Leopoldina, os Duques de Saxe passavam os dias entre as cerimônias oficiais de Estado e os eventos da vida pessoal. Em 21 de maio de 1869, Dom Pedro Augusto ganhava mais um irmão – nascia, na Cidade Imperial, o Príncipe Dom José.

Em agosto de 1869, o Duque de Saxe e a Princesa Dona Leopoldina desejaram retornar a Europa. A volta marcou a despedida da Princesa das terras brasileiras. Foi uma grande temporada, entre Paris, Viena, Graz, Ebenthal e tantas outras cidades onde o casal e os filhos eram muito bem recebidos. Apesar das dificuldades politicas da Europa de então, vivia-se feliz com as distrações domésticas e sociais. As crianças prendiam a atenção da família, crescendo, desenvolvendo-se e aprendendo. Dia-a-dia manifestavam progressos que eram compartilhados com os tios e os avôs no Brasil. O pequeno Dom Pedro Augusto recebia também os cuidados do preceptor Gustave Braun, que se encarregou das primeiras noções comportamentais do pequeno Príncipe.

Em 1870, nascia no bucólico Castelo de Ebenthal, na Caríntia, o quarto filho dos Duques de Saxe, o Príncipe Luís. Uma criança esperada, bela e saudável, que foi batizada pelo Conde d'Eu e pela Princesa Dona Isabel do Brasil, que mais tarde viria a se casar com a Princesa Matilde da Baviera, filha do Rei Luís III e tia da Princesa Dona Maria (1914-2012), de jure Imperatriz do Brasil.

Apesar de toda a comodidade e fausto, a precariedade do sistema sanitário abalava os grandes centros de todo o mundo. Viena, onde os Duques de Saxe residiam parte do tempo em que estavam na Europa, era uma metrópole cultural muito famosa, berço de Schubert e dos Strauss, era também reconhecida pelas artes dos mestres da Academia, além da bela arquitetura, como demonstra a Catedral de Santo Estevão e o Palácio de Schönbrunn. A Cidade dos Músicos, como sempre foi conhecida a capital austríaca, atraia gente de todas as partes do mundo e, com este fluxo, também emergiam as doenças. Com estas mazelas, as populações eram dizimadas por febres, infecções e outros vírus, que sem tratamento adequado e os parcos recursos da época, tornavam-se letais. Bom exemplo foi a febre tifoide, uma moléstia infectocontagiosa, extremamente perigosa, que debilitava as vítimas em pouco tempo. Não foi diferente quando a Princesa Dona Leopoldina contraiu a doença. O mesmo mal que acabou por levar o compositor austríaco Franz Peter Schubert, em 1828, e depois o tio do marido de Dona Leopoldina, o Príncipe Alberto – Consorte da Rainha Vitória da Grã-Bretanha, em 1861, acabou por levar a Princesa.

Aos 24 anos de idade, casada há 6 e com quatro filhos na tenra idade, depois de muito sofrer as agonias da doença, faleceu no Palácio de Coburgo, em 7 de fevereiro de 1871. A Família Ducal de Saxe se encerrou num grande luto, assim como a Corte de Viena e os Imperadores, que decretaram luto de 17 dias. O Núncio Apostólico em Viena, que viria a ser mais tarde Cardeal da Santa Igreja, Monsenhor Mariano Falcinelli Antoniacci, foi o encarregado dos ofícios fúnebres da Princesa, que muito bem conhecia por ter estado no Brasil como Inter Núncio entre os anos de 1858 e 1863. Às cerimônias comparecerem membros de diversas Casas Reais e, sobretudo, a irmã e o cunhado da falecida, a Princesa Dona Isabel e o Conde d'Eu, que haviam viajado à Europa e chegaram a tempo de presenciar os últimos momentos de Dona Leopoldina. Foi enterrada na Cripta da Igreja de Santo Agostinho, em Coburgo.

É fácil imaginar o quão conturbado foi este período na vida da Família Imperial. O Duque de Saxe padeceu de grande tristeza e nunca mais casou. Na época, o pequeno Dom Pedro Augusto contava com 4 anos, Dom Augusto Leopoldo com 3, Dom José com 1 e Dom Luís com apenas 6 meses de idade. A tristeza abateu os amigos e a família. Dom Pedro Augusto nunca conseguiu refazer-se de tão grande consternação. A partir de então, as perdas passaram a ser uma constante na vida deste Príncipe, que com resiliência e fé continuou a viver.

Os Imperadores do Brasil, também muito abalados com a morte da filha, viajaram também para Coburgo para visitar seu túmulo, onde foram recebidos pelo Príncipe Alfredo – Duque de Edimburgo e futuro Duque Soberano de Saxe, pelo genro viúvo – o Príncipe Luís Augusto, pelos netos - Dom Pedro Augusto e Dom Augusto Leopoldo, e pela Duquesa Alexandrina de Baden, casada com Ernesto II, então Duque Soberano de Saxe. O consenso familiar resolveu por levar a cabo as disposições da convenção matrimonial, que citava nos artigos 3º e 4º as obrigações do Duque de Saxe enquanto a sucessão da Princesa Dona Isabel não estivesse bem firmada. Decidiu-se, portanto, que o primogênito e o secundogênito viessem a morar com os avôs no Brasil.

De fato, a Princesa Dona Isabel não havia conseguido engravidar e a situação colocava o Príncipe Dom Pedro Augusto como seu possível sucessor. Mas, depois dar a luz, em 1874, a uma menina natimorta, a Princesa Dona Isabel trouxe ao mundo o Príncipe Dom Pedro de Alcântara em 1875, tendo em seguida os Príncipes Dom Luís, em 1878, e Dom Antonio em 1881.

Em 30 de março de 1873, o Imperador Dom Pedro II e a Imperatriz Dona Teresa Cristina, acompanhados dos netos Dom Pedro Augusto e Dom Augusto Leopoldo, além do genro – o Duque de Saxe, desembarcaram no Rio de Janeiro. Era o início de uma nova vida para os pequenos órfãos.

Muito inteligente, Dom Pedro Augusto, já aos 9 anos, pôde aproveitar, sem nenhum privilégio, dos benefícios implantados por seu avô, o Imperador do Brasil. Foi matriculado no Colégio Pedro II, grande referencial da educação no Brasil e de lá saiu, em 1881, bacharel em Ciências e Letras. Seguiu seus estudos na Escola Polytechnica do Rio de Janeiro, fundada em 1792, como a primeira instituição de ensino superior do país e que serviu de celeiro de professores para as demais faculdades que surgiriam. Foi lá que Dom Pedro Augusto se graduou como Engenheiro Civil em 1º de abril 1887. Enquanto o irmão – Dom Augusto Leopoldo, aproximava-se da Marinha de Guerra, para fazer carreira como o avô – o Príncipe Luís, e o próprio pai, Dom Pedro Augusto preferiu seguir o outro avô – Dom Pedro II. O Imperador, dedicado a educação dos netos, transferiu a eles o gosto pelos estudos, pelas ciências e pelas artes. Dom Pedro Augusto em quase tudo parecia com este avô Imperador. Eram sempre vistos juntos, compartilhando livros, histórias e impressões.      

Depois de formar-se Engenheiro, Dom Pedro Augusto passou a residir no palacete de seus pais, na Rua Duque de Saxe (atual Rua General Canabarro), em companhia do irmão Dom Augusto Leopoldo. Este, por sua entrada na Escola Naval e o serviço como Oficial da Armada Imperial, pouco permaneceu na residência. O Palacete Leopoldina, como passou a ser conhecida a antiga casa de José Bessa, foi adquirido pelos Duques de Saxe, logo depois do casamento. Era uma agradável vivenda que contava com um grande terreno, acrescido de um lago e um belo jardim. A casa principal era um imenso pavilhão e contava com muitos cômodos. O terreno contava ainda com duas casas sobressalentes que foram ocupadas pelo pessoal de serviço dos Príncipes. Assim que foi adquirida, os Duques de Saxe empreenderam uma considerável reforma no casarão. Tapeçarias, louças, baixelas e objetos de arte vieram da Europa, tendo pagado, os ilustres moradores, tanto pelo translado comercial, quanto pelas altas tarifas alfandegárias. Os belos móveis foram executados, principalmente, por mestres brasileiros.  Quando Dom Pedro Augusto foi morar no Palácio, teve que empreender muitas melhorias, pois, apesar do devotamento do abegão Guilherme Wagner, o prédio não era habitado há mais de 15 anos. O Príncipe adquiriu obras de renomados pintores brasileiros, incorporou aos jardins várias espécies da flora nacional e revitalizou a antiga propriedade.

Numismata, filatelista e mineralogista, Dom Pedro Augusto reuniu no Palácio grandes coleções que eram admiradas pelos estudiosos, chegando a publicar trabalhos de pesquisa e ensaios profissionais, tidos hoje como livros raros. Patriótico e atento às questões nacionais, fez de sua casa um centro cultural informal, onde se discutia a literatura, as artes, as ciências, a economia e, claro, a política, reunindo gente da cepa de Alfredo d'Escragnolle Taunay -  Visconde de Taunay, Joaquim José de França Júnior, José Antunes Rodrigues de Oliveira Catramby, José Joaquim de Maia Monteiro - Barão de Estrela, e muitos outros. Com as reformas na casa, Dom Pedro Augusto, assim como os tios – a Princesa Dona Isabel e o Conde d'Eu, recebia a todos, e tanto a população, quanto as grandes personalidades da época foram acolhidos no palacete.

Aos 23 anos, Dom Pedro Augusto foi recebido como sócio no prestigiado Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, e, como muito bem notou o Conde de Afonso Celso, "tinha já real merecimento". O Instituto era motivo de grandes alegrias ao Imperador, que o colocou sob sua "imediata proteção", participando ativamente das sessões e colóquios ali realizados. Também como o avô, o Imperador Dom Pedro II, Dom Pedro Augusto fazia parte dos quadros do prestigioso Institut de France. Muito distinto, o Príncipe possuía também a Grã-Cruz das Imperiais Ordens do Cruzeiro, de Pedro Primeiro, da Rosa, sendo também agraciado, no mesmo grau, com dignidades estrangeiras, como a Ordem da Torre e Espada de Portugal, de Leopoldo da Bélgica, Ernestina da Saxônia - da Casa Ducal de Saxe, da legião de Honra da França e a de Santo Alexandre da Bulgária.  

Grande incentivador da cultura brasileira, Dom Pedro Augusto defendeu a criação de um Museu de Arte Retrospectiva, para abrigar objetos e documentos da História do Brasil. Sob sua presidência, instalou-se a Sociedade Comemorativa da Independência, que preconizava em seu estatuto, além da criação do museu, a instituição de medalhas comemorativas ao 7 de Setembro, como forma de premiação aos melhores trabalhos científicos sobre temas de interesse nacional.

Entre 1887 e 1888, durante a terceira viagem do Imperador a Europa, o Príncipe Dom Pedro Augusto foi destacado para participar da comitiva de Dom Pedro II. Era uma viagem para recuperação do Monarca, que padecia de doenças severas que quase o levaram a morte. A comitiva passou por vários países, alcançando principalmente a França, a Itália e a Áustria. Dom Pedro Augusto, que pode rever o pai, os avôs Saxe, os tios e os primos no Velho Continente - com os quais trocava intensa correspondência – lá, dividia-se entre as visitas aos parentes e a assistência ao avô acamado. As anotações da época dão conta que comentava com a avó paterna, a Princesa Clementina, sobre a situação do Brasil e da Europa, mas principalmente sobre o Imperador. Com sua outra avó, a Imperatriz do Brasil, e com o Conde de Motta Maia, médico pessoal de Dom Pedro II, discutia alternativas para a cura do ilustre doente. Mas, depois de grandes eventos no Brasil, incluindo-se a Abolição da Escravatura, o Imperador Dom Pedro II, pela considerável melhora, resolveu retornar ao Brasil com sua comitiva. O escritor Heitor Lyra, na página 64 da obra "História de Dom Pedro II (1825–1891): Declínio (1880–1891)", de 1977, refere que o "país inteiro o recebeu com um entusiasmo jamais visto. Da capital, das províncias, de todos os lugares, chegaram provas de afeição e veneração". Era muita alegria na Corte naquele dia 22 de agosto de 1888, pois depois da grande apreensão com relação à saúde do Soberano, enfim ele retornava com vigor à sua pátria.

Mas, a despeito de toda a alegria, chegava ao Rio, pouco depois do Imperador e de sua comitiva, o comunicado da morte do Príncipe José, ocorrida em 13 de agosto, na Áustria. Triste notícia que mais uma vez abalava a todos, sobremaneira seu irmão, o Príncipe Dom Pedro Augusto. Aos 19 anos desaparecia o jovem Príncipe José, que após contrair uma grave pneumonia, adquirida na Escola Militar de Wiener-Neustadt, acabou por não resistir. Era mais um duro golpe ao Príncipe Dom Augusto Leopoldo, sempre marcado pelas tragédias. Infortúnios que para ele significavam muito, pois tinha, conforme atestam as cartas e diários, um apurado senso de família, amor fraternal e, sobretudo, a carência - da falta de sua mãe, da distância do pai. Foram meses de luto, com poucos eventos sociais e quase nenhuma alegria, finalizados para que pudesse transcorrer, mais a frente e com relativa lentidão, a amargura do exílio, vinda com golpe republicano.

Mesmo abalado, o Príncipe Dom Pedro Augusto quis oferecer um memorável jantar aos Oficiais do couraçado "Almirante Cochrane", do Chile, em 5 de novembro de 1889. O evento, onde compareceram as maiores autoridades civis, militares e religiosas da capital do Império, tinha o fim exclusivo de agradecer aos chilenos a calorosa recepção que o presidente daquele país proporcionou a Dom Augusto Leopoldo, quando este esteve a serviço em Santiago, navegando no "Almirante Barroso". Este jantar ocorreu apenas dez dias antes da proclamação da república. 

Em 15 de novembro de 1889, a pequena revolução alavancada pelos positivistas e endossada por um pequeno grupo de militares, acabou com a monarquia no Brasil. Factualmente, os idealistas do positivismo objetivavam a queda da monarquia e, como massa de manobra, utilizaram os militares, que por desentendimentos com o novo Presidente do Conselho de Ministros, pretendiam derrubar apenas o Ministério e não o Império. Uma fatalidade. Essa situação também foi fatal para o Príncipe Dom Pedro Augusto. Era desde pequeno mencionado por pasquins e pelo povo como o neto predileto do Imperador e onde quer que fosse, sua inteligência e porte elegante atraiam a atenção. Era querido por todos. Reunia todas as características de um príncipe de sangue. Por todos os seus dotes, a impressa – já à época sensacionalista e impiedosa, costumava apontá-lo como futuro Imperador, o que de fato, não poderia ocorrer, tendo em vista que a sucessão da Princesa Dona Isabel estava assegurada. Com estas mesmas ideias, foi também insuflado por falsos amigos... Dom Pedro Augusto, pelas perdas tão frequentes e significativas, já na viagem que levaria a Família Imperial para o exílio, acabou por dar sinais de enfraquecimento mental, o que só fez piorar com o falecimento de quase todos os seus entes queridos: a avó – a Imperatriz Dona Teresa Cristina, falecida em 1889; o avô – Dom Pedro II, em 1891; a outra avó – a Princesa Clementina e, sem seguida, o pai, em 1907; o querido irmão – Dom Augusto Leopoldo, em 1922, e os primos Dom Antonio e Dom Luís de Orleans e Bragança e os tios – o Conde d'Eu e a Princesa Dona Isabel, também falecidos nesta mesma época.

Ainda naquele fatídico ano, com as resoluções internas da Casa Imperial do Brasil, na condição de Família não reinante, Dom Pedro Augusto passou a ser o Chefe do Ramo Dinástico de Saxe-Coburgo e Bragança.

Vivendo principalmente no Palácio de Coburgo, não reagindo a tratamentos ministrados pelos melhores médicos e cientistas de então, incluindo-se aí o famoso Dr. Sigmund Freud, o Príncipe teve de ser internado numa casa de saúde em Tülln an der Donau, permanecendo lá até o fim de sua vida. Com a queda da monarquia no Brasil e a extinção dos Ducados Ernestinos, sem nenhuma pensão, Dom Pedro Augusto, assim com todos os exilados, passou por dificuldades financeiras e seus procuradores viram-se obrigados a executar, em 25 de abril de 1900, um grande leilão de sua biblioteca. Verdadeiro tesouro estava a venda em Viena, chegando a ser anunciado em jornais da Europa, como sendo o leilão da biblioteca pessoal do Imperador do Brasil.

Em 7 de julho de 1934, Dom Pedro Augusto pode enfim descansar, partindo para a vida eterna. Seu corpo foi depositado, junto as sepulturas de seus pais e irmãos na Cripta da Igreja de Santo Agostinho, em Coburgo. Na lápide de seu túmulo, pode-se ler a inscrição latina PETRUS AB ALCANTARA AUGUSTUS LUDOVICUS MARIA MICHAEL GABRIEL RAPHAEL GONZAGA SAXONIAE COBURGU ET GOTHAE PRINCEPS; SAXONIA DUX NAT, IN CIVITATE FLUMINENSI DIE XIX MARTII MDCCCLXVI JUVENIS PRAECLARIS PRAEDITUS DOTIBUS PRAESERTIM ACUMINE INGENII, PETRI BRASILIAE IMPERATORI NETOS PRAEDILECTUS. IN LAMENTABILI IMPERII OCCASU GRAVI CORREPTUS INFIRMITATE. OBIT PIE IN DOMINO VINDOBONAE DIE VI JULII A.D. MCMXXXIV R.I.P. Com sua morte, sucedendo-o na Chefia deste Ramo Dinástico, o Príncipe Dom Augusto Leopoldo e posteriormente sua filha, a Princesa Dona Teresa Cristina e, atualmente, o filho desta, Dom Carlos Tasso de Saxe-Coburgo e Bragança.

Deixando uma brilhante história a ser lembrada, a biografia de Dom Pedro Augusto de Saxe-Coburgo e Bragança ainda não foi apresentada por completo. Algumas inserções sérias e isentas sobre a vida e obra do Príncipe foram feitas por Clado Ribeiro de Lessa e Carlos Wehrs nas Revistas do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, mas é seu sobrinho-neto, Dom Carlos Tasso de Saxe-Coburgo e Bragança, legitimo representante das tradições deste ramo da Família Imperial, que conta através de suas palestras, ensaios e livros, algumas interessantes notas sobre seu tio-avô. Dom Pedro Augusto, por seu patriotismo e abnegação, bem merece uma biografia fora da ficção e do romance, que atente para a realidade dos fatos. Maior justiça ainda seria feita com a transladação de seus restos mortais, assim como o de seus pais e irmãos, para o Brasil, a serem depositados em um mausoléu ou panteão à altura daqueles que tanto fizeram por sua pátria e jamais poderão ser relegados ao esquecimento. 

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Referências bibliográficas:

Lessa, Clado Ribeiro de. O Segundo Ramo da Casa Imperial e a nossa Marinha de Guerra, in Revista do Instituto Histórico e Geografico Brasileiro, vol. 211, 1951.

Bragança, Dom Carlos Tasso de Saxe-Coburgo e. A Princesa Leopoldina, in Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, vol. 243, 1959.

Bragança, Dom Carlos Tasso de Saxe-Coburgo e. As Visitas de Dom Pedro II a Coburgo, in Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, vol. 272, 1966.

Bragança, Dom Carlos Tasso de Saxe-Coburgo e. Príncipe Dom Pedro Augusto de Saxe-Coburgo e Bragança e o "Leilão em Viena", in Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, vol. 422, 2004.

Bragança, Dom Carlos Tasso de Saxe-Coburgo e. Palácio Leopoldina, in Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, vol. 438, 2008.

Figueiredo Junior, Afonso Celso de Assis. Palavras do Conde de Affonso Celso sobre o falecimento do sócio honorário Dom Pedro Augusto de Saxe-Coburgo, in Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, vol. 169, 1934.

Patrimônio do Príncipe Dom Pedro Augusto de Saxe-Coburgo e Bragança, Typografia do Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 1891.

Bragança, Dom Carlos Tasso de Saxe-Coburgo e. A Intriga: Retrospecto de Intricados Acontecimentos Históricos e Suas Consequências no Brasil Imperial. Editora Senac. São Paulo, 2012.

Bragança, Dom Carlos Tasso de Saxe-Coburgo e. Dom Pedro II na Alemanha: uma amizade tradicional. Editora Senac. São Paulo, 2014.



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